Setembro Amarelo - Análise do Filme Romeu + Julieta (1996)
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Desde a primeira vez que assisti o filme até rever o longa-metragem, me cativou analisar/divagar o intento da narrativa, a escolha pelo suicídio e a fase que Romeu e Julieta estão. E esta é experiência da adolescência "onde enfrentamos o mundo complexo para o qual ainda não se dispõe de um repertório adequado, pois as mudanças que o ambiente exige desta fase são em número muito grande, sendo a adolescência um período de aprendizagem de regras novas" (Fester,1973).
Buscando fazer uma análise da releitura cinematográfica desta adapatação de 1996 da peça shakespeariana Romeu + Juleita do Diretor Baz Luhrmann, percebemos que, em sua maioria, os diálogos foram mantidos iguais a peça com o intiuto de preservar a autenticidade desta célebre obra de Shakespeare nos remetendo a percepção da intertextulidade e da beleza e potência desta narrativa visual. Indico, portanto a revisitar a obra.
O encontro inicial, o deslumbre referido pelos personagens como amor e a sequência de atos que termina em suicídio, citando @leandro_karnal o amor intenso na linha de tempo da formação desse casal foi de 4 dias. A fantasia contida nas declarações de comparação à luz da lua e às estrelas, a intensidade presente nos diálogos. Um amor arrebatador. Precoce. Os planos de casar. Fugir. Tudo isso aliado à foraclusão do sentimento - o "amor" que se confronta como uma experiência, uma representação intensa - implicada nesta fase da vida. O anseio, o desejo intenso em viver este momento, em concretizar, consubstanciar, tornar permanente essa visão - de amor/suicídio determina os atos seguintes. A poção se traduz na solução para esse enredo, para esse movimento de pertencer ou não pertencer ao outro. O veneno e a arma os liberta para confirmar o amor/morte entre Romeu Montéquio (Leonardo DiCaprio) e Juleita Capuleto (Claire Danes).
Para discorrer esta análise há que mencionar a aparição de Romeu em um palco (que pela dedução do autor, encontra-se em idade aproximada, entre 15 e 16 anos). O jovem é revelado na cena, em um palco, no qual a filmagem amplia o cenário para o pôr-do-sol, ao fundo, remetendo a uma atmosfera soturna, percebendo à visão de estar às sombras, ao som da música Radiohead Talk show host que traduz o desejo de ser outra pessoa, despersonalizar entre a liberdade ou a condição de pertencer alguém para a resolução dos seus desejos. Escreve em seu diário: "Oh amor briguante, oh ódio amante! Que do nada algo cria, antes de tudo! Pesada leveza, séria leviandade. Desafortunado caos de formas que bem parecem".
A mãe demonstra preocupação, ambos pai e mãe, parecem distantes de Romeu com receio de conversar e perceber o afastamento do filho. A alternativa, portanto, é acionar o primo Benvólio e no diálogo percebe-se o conflito entre ter/pertencer ao outro e este outro do desejo ser a resolução de todo o seu caos.
Romeu traz à tona seu estar melancólico por amor não correspondido de Rosalina (que está citada apenas duas ou três vezes no filme). Em seguida, surge a turma de Romeu, e ao amigo Mercúcio cabe o papel de líder. Desafiador. Colorido e sedutor. Adjetivos que a adolescência demanda, além da curiosidade que impulsiona a busca de apaziguar o medo abstrato, realizações afetivas, sexual ou profissional.
Nesse período, há inumeras possibilidades passíveis de escolhas construtivas e destrutivas e a trilha sonora escolhida para compôr a cena do convite à festa "Young hearts run free" segue tocando ao fundo, enquanto os personagens se dirigem ao local do evento, salientando o sentido da vida, onde corações jovens correm livres, desprendendo do homem a necessidade de estar presente e reconhecer o amor próprio e a responsabilidade de cuidar dos sentimentos, criando a atmosfera do encontro entre Romeu e Juleita.
Eis que surge, então, Julieta (13 anos, idade definida na peça) submersa na banheira de casa, momento este, em que sua Mãe - aos berros - a chama para apresentar o valor de seu futuro casamento. Julieta, porém, responde: "Olharei que agrade, se olhando se move o agrado". Aqui, Julieta coloca sua posição. Que cabe ao interesse dela e não apenas ao dote e ao que agrada a sua mãe. Julieta deslumbra-se com os fogos de artifícios e a chegada dos convidados. No decorrer da festa a Mãe apresenta-lhe à Paris. Não demonstrando agrado a Julieta, mas sim à sua mãe, Romeu a interrompe. Ambos acabam se encontrando em frente ao áquario, que reflete a profundidade e a exaltação das imagens.
Esse reflexo é o manifesto do andar das emoções e o desejo da realização imediata que a adolescência cria e transborda sendo perceptível na Lovefool - "Me ame! Me ame! (Diga que me ama!) Me engane! Me engane! (Vá em frente! Me engane!)". Entre beijos santos e convenientes, entre a descoberta de a qual família cada um pertence, ambos buscam no Frade a solução mágica e imediata.
Em um ato de desespero, Romeu devido ao duelo/assassinato do primo de Julieta decidem consumar o casamento às escondidas. Dentre as combinações da "suposta morte de Julieta " e carta não entregue, a história se finda com suícidio. Ocorre a perda. O luto. Ambas famílias perdem seus únicos filhos.
A releitura dessa obra/filme me causa eco na questão da dor e anedonia em relação aos sentimentos/escolhas que todos vamos passar e na dificuldade de comunicar/traduzir e o tempo que precisamos nos dispor para que isso aconteça. A arte tem por si só provocar a dicotomia entre o amor/ódio e a fantasiar, no filme, que a solução é a morte. Penso que Shakespeare nos deixou a obra de Romeu e Julieta para acionar pensamentos: Até que ponto estamos dispostos a realizar o que desejamos? O que faço com minhas irrealizações e frustrações? Que comunicação temos com nossos pais e filhos? Preocupação com ganho, estabilidade? O que é estar bem?
Finalizo esta análise com as palavras do Príncipe "Esta manhã nos trouxe paz sombria: esconde o sol, de pesadume, o rosto. Ide; falai dos fatos deste dia; serei clemente, ou rijo, a contragosto, que há de viver de todos na memória de Romeu e Julieta a triste história".
*VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHO! BUSQUE AJUDA!
JOÃO F.M.SCHNEIDER
Psicólogo Clínico CRP 07/21058
Referência:
Romeo + Juliet. Direção Baz Luhrmann. Estados Unidos: 20th Century Fox, 1996. 1 DVD (120 min)
DESLANGE, Paiva. Crítica: Romeu + Julieta (1996). Disponível em: https://clubedaspipocas.com.br/criticas/critica-romeu-julieta-1996/. Acesso em: 05 set.2020
Fester, C.B. (1973). A Functional Analysis of Depression. American Psychologist, 23 (10): 857 - 870.
FELTRIN, Tatiana. Romeu e Juleita (Willian Shakespeare).2020.(23m40s)<https://www.youtube.com/watch?v=vcZ37UpM6IY>. Acessado em: 12 set.2020
KARNAL, Leandro. Romeu e Juleita nunca foi uma história de amor.2015.(1m52s) <https://www.youtube.com/watch?v=XNnxUPVPiuI >. Acessado em: 05 set.2020
Karnal, Leandro. Amor/ Shakespeare.Um olhar contemporâneo #3.2018.(19m12s) <https://www.youtube.com/watch?v=FfLMStTvJbk>. Acessado em: 05 set.2020
Shakespeare, Willian. Romeu e Julieta. Versão para eBook eBooksBrasil.org. Acessado em: 22/09/2020
Willian Shakespeare's Romeo + Julieta : Music from the Motion Picture(1996).2007.Disponível em: https://music.youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_mrUJDPBbzLYclqrQVG8SDqU3GLcxoMK_4.Acesso em: 05 set.2020



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